As concepções de beleza do corpo


As concepções de beleza não apenas mudam com o tempo e as convenções sociais, mas também encontram variáveis em relação aos géneros1399

“Representar a Beleza de um corpo significa, para o pintor, responder a exigências de natureza tanto teórica – o que é a Beleza? Em que condições é conhecível? –, quanto prática – que cânones, gostos e costumes sociais permitem considerar ‘belo’ um corpo? Como muda a imagem da Beleza no tempo, e como em relação ao homem e à mulher?”, indaga o filósofo, escritor e teórico italiano Umberto Eco em História da beleza, publicação organizada por ele e lançada no Brasil em 2004 pela editora Record. A representação da formosura corporal, analisada por Eco nesse rico e ilustrado volume, assume outros contornos diante dos paradigmas advindos da arte contemporânea e no contexto de uma sociedade com tendências a desprezar quem não cabe nos seus desejos de perfeição.

Tome-se como exemplo dois dos mais famosos quadros de Lucian Freud (1922-2011), pintor alemão naturalizado britânico que se tornou um dos principais expoentes do Figurativismo no século 20. Benefits supervisor resting, datada de 1994, foi vendida em maio deste ano em um leilão de arte do pós-guerra na Christie’s, em Manhattan. O preço: 35,8 milhões de libras, o equivalente a R$ 173,8 milhões. Benefits supervisor sleeping, da mesma série (na foto acima), foi adquirida pelo magnata russo Roman Abramovich por 17,25 milhões de libras em 2008, o que hoje daria R$ 83,75 milhões. Nas duas pinturas, quem posou para o neto de Sigmund Freud foi a funcionária pública Sue Tilley, à época com 140 quilos, apelidada pelo próprio artista de “Sue Gorda”.

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Durante 40 anos (a partir dos anos 1870), Renoir realizou uma série com mulheres saídas do banho. Imagem: Reprodução

Sue ganhou 20 libras por dia para servir de modelo a quatro pinturas. Lucian, ainda enquanto vivia, já era saudado como um dos mais exímios artesãos da forma humana. Atento às “exigências de natureza teórica e prática” a que se refere Umberto Eco, propôs o resgate da beleza suprema de um corpo acima do peso, fora dos arquétipos, abaixo de critérios sociais de estetização que a arte, sinal e espelho dos tempos, também incorpora. “A arte se relaciona com os padrões e as normas sociais vigentes. Costumo recorrer a um texto de Paul B. Preciado que afirma que o corpo é um texto socialmente escrito, um arquivo orgânico, reescrito e reelaborado a cada momento, inclusive na sua relação com o tempo histórico”, argumenta o professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro Vinicios Ribeiro.

Uma linha do tempo do retrato do corpo gordo, portanto, faria um percurso no qual arte e história estariam indissociáveis. “Na Idade Média, quando havia escassez de alimentos e muitas doenças, um corpo volumoso denotava saúde e prosperidade financeira. As mulheres mais corpulentas do Renascentismo exprimiam o desejo de um ideal de beleza da época”, destaca Ribeiro. Ele atenta, porém, para um aspecto essencial: estes mesmos corpos femininos, cujos moldes se alargavam ou diminuíam com o passar do tempo, simbolizavam a perspectiva do que os homens almejavam ver da e na fêmea.

“Ao longo dos séculos, a quantidade de homens que produzem um olhar sobre o corpo feminino é infinitivamente maior do que o contrário. A nudez, os detalhes, o excesso de peso – tudo isso veio com a criação de imaginários do corpo feminino e, como tal, relaciona-se com as sociedades, com os valores, com o que era permitido ou não”, ressalta o professor Vinicios Ribeiro, que pesquisou a obra da artista Fernanda Magalhães no mestrado em Cultura Visual na Universidade Federal de Goiás. “Na arte brasileira e internacional dos anos 1950 e 1960, o corpo veio como forma de protesto e matéria de criação, mas demorou para surgirem essas experiências que questionavam os padrões estéticos e os volumes corporais. Fernanda foi uma pioneira”, delimita.

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Em Banho turco, de 1863, a estética neoclassicista dos corpos femininos. Imagem: Reprodução

Fazendo jus, portanto, ao seu caráter precursor, a fotógrafa e performer paranaense insiste na importância do feminismo na contenda contemporânea que mistura lipofobia e machismo. “A gordofobia é uma das discussões do feminismo, já que tem a ver com as questões de aparência e da objetificação do corpo. Não rechaço quando alguém me diz que faço uma ‘arte feminista’. Michel Foucault, Gilles Deleuze, Judith Butler e Margareth Rago são referências importantes dos estudos feministas que trago para meu trabalho. O fato é que, na arte e na vida, há uma outra leitura do corpo do homem e também desse corpo masculino obeso. Questões de poder fazem com que eles recebam olhares diferentes daqueles destinados ao corpo de mulheres”, comenta Fernanda Magalhães, que também é professora de Artes Visuais da Universidade Estadual de Londrina.

“O homem mantém a mão livre para empunhar a espada, a mulher precisa usar a sua a fim de evitar que o vestido de cetim escorregue dos ombros. O homem olha para o mundo de frente, como se ele tivesse sido feito para servi-lo e criado a seu gosto. A mulher o observa de soslaio, com um olhar prenhe de sutileza, até mesmo de suspeição”, conceitua o narrador de Orlando, escrito em 1928 pela inglesa Virginia Woolf (1882-1941), cujo protagonista é um nobre britânico que se metamorfoseia em mulher e experimenta, na pele, a desigualdade de gênero. Séculos antes, o filósofo Edmund Burke (1729-1797), citado por Umberto Eco em História da beleza, defendia: “… a perfeição considerada em si mesma está tão longe de ser causa da Beleza, pois justamente onde a Beleza se encontra em grau mais alto, isto é, no sexo feminino, carrega quase sempre consigo uma ideia de fragilidade e de imperfeição”. De ambos os exemplos literários, sobressai a certeza de que a representação do feminino, com seus corpos flutuantes, deriva de uma percepção externa.

Por :  Luciana Veras

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Comparaçoes corporais ” a bucha e o estica “

PROJETO FOTOGRÁFICO QUE MOSTRA A BELEZA DE MULHERES GORDAS

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Muito provavelmente você está ou já esteve, alguma vez na vida, insatisfeito com o seu corpo. Não é que, do nada, você simplesmente deixasse de se amar. Mas, quando você é mulher, a pressão estética para alcançar um determinado padrão é grade. Esses efeitos da sociedade patriarcal e machista na qual vivemos são ainda mais cruéis com as pessoas gordas, que enfrentam diariamente o preconceito (gordofobia) e tentam se encaixar em um padrão de beleza inalcançável.

As coisas pioram quando você busca referências na televisão, nas revistas e nas indústrias de moda e cosméticos e encontra pouquíssimas ou nenhuma. E foi justamente essa busca por representatividade que fez a fotógrafa Milena Paulina, 24 anos, criar um projeto fotográfico que colocasse mulheres gordas em evidência.

Sempre pediam para eu ir. Eu sei o quanto essas coisas mais diferentes, essas causas sociais voltada pra um nicho – principalmente pro nicho gordo – chegam pouco. A gente vê isso no nosso dia a dia: faltam lojas, falta inclusão. Levar meu projeto para Salvador faz parte da minha decisão de levar as coisas cada vez mais longe, principalmente as mensagens de amor, decompreensão, de inclusão e representatividade”, conta Milena, que hoje soma mais de 44 mil seguidores

POR NAIANA RIBEIRO

Fonte: pmemoria

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