Auschwitz: o lugar onde se entra mas do qual não se sai


Cumprem-se hoje 75 anos da libertação do maior campo de concentração e extermínio da II Guerra Mundial erigido pelo regime nazi. A data, que não por acaso coincide com a celebração anual do Dia da Memória do Holocausto, é marcada pela cerimónia em Auschwitz- Birkenau e pela presença de 200 sobreviventes, além de chefes de Estado e embaixadas de todo o mundo

Quando Primo Levi regressou a Turim depois de ter sobrevivido a 11 meses em Auschwitz, pôs em palavras o pesadelo partilhado por muitos dos prisioneiros: não sobre a dor física, a tortura, a fome, a doença ou a morte iminente, mas sobre o pavor de contar o que aconteceu e ninguém acreditar. Auschwitz era de tal modo impensável que o mais certo seria as pessoas duvidarem da sua realidade. Sabemos que Primo Levi não viu os seus receios cumpridos. Escreveu “Se Isto é um Homem” logo em 1947, contrariando o silêncio a que se remetia a maioria dos sobreviventes, e nesse relato cru e objetivo expôs, como quem abre um corpo, a complexa arquitetura do extermínio.

Escreveu o horror como se redigisse um relatório fabril, em linguagem simples e acessível, e a partir de então nunca deixou de abordar o assunto. Não porque o mundo não acreditasse nele — embora houvesse, como há hoje, quem ainda duvide. Mas porque, num mundo onde Auschwitz foi possível, numa Europa culta que chegou àquele estádio de desintegração humana, o esquecimento é um insulto histórico, uma ameaça letal. “Não temos regresso”, profetizou Levi. “Ninguém deve sair daqui, pois deveria levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que, em Auschwitz, o homem teve a coragem de fazer ao homem.”

Mas a razão principal por que Levi, o químico, passou a vida a falar e a escrever sobre a experiência em Auschwitz — o último livro, “Os que Sucumbem e os que se Salvam”, de 1986, é um voltar ao sítio de partida 14 obras depois — foi o temor de que esta viesse a repetir-se. O mesmo que também dominou um outro homem, chamado Eddy de Wind, psiquiatra holandês que assistiu à libertação do campo pelo exército russo, a 27 de janeiro de 1945, e que ficou em Auschwitz após essa data para prestar serviço como médico e para escrever um texto, intitulado “Última Paragem — Auschwitz”, onde relata um ano inteiro passado nesse inferno. “Se anotar agora e todos ficarem a saber, isto nunca mais há de acontecer”, registou.

O que diriam ambos hoje, a exatos 75 anos do dia em que os soviéticos entraram em Auschwitz, eles que foram poupados, privilegiados, ao contrário de 95% dos prisioneiros? O que diriam hoje, quando a memória se esbate, se anula e diminui, quando um terço dos europeus não sabe ou não quer saber o que foi o Holocausto? Quando a extrema-direita e o populismo aumentam o seu raio de influência, respondendo a um desconforto a que ainda não conseguimos dar nome, e negam de uma penada o desastre climático, a mortandade da II Guerra e as câmaras de gás, citando Goebbels desaforadamente? Será que, como disse Jonathan Littell ao Expresso, “70 anos é o máximo para as pessoas manterem uma memória coletiva sobre o horror do passado”? Que três gerações de paz é “o máximo a que podemos aspirar”?

Doentes no Krankenbau, o bloco 28 de Auschwitz I
Doentes no Krankenbau, o bloco 28 de Auschwitz

FÁBRICA DE MORTE

Auschwitz. Cerca de 1,3 milhões de mortos, a grande maioria judeus, mas também ciganos, soviéticos, polacos. Três campos principais e 45 subcampos-satélites. O tempo não torna mais fácil entrar lá, ver a desolação dos blocos, a amplidão industrial de Birkenau, planeada por exímios arquitetos e engenheiros, a relva e os caminhos onde antes havia lama e pedras, os visitantes — 1,9 milhões em 2019, aproximadamente mil por hora, a movimentarem 340 guias em 21 línguas — a pisarem o que sabemos ser um cemitério imenso, os telemóveis e câmaras fotográficas apontadas para os escombros das câmaras de gás que matavam até 2000 pessoas em escassos minutos — foi a primeira estrutura que os alemães destruíram face à aproximação do exército russo —, o Museu com as centenas de malas, os milhares de sapatos, de relógios, de escovas, de cabelos e de tecidos com estes feitos, as roupinhas das crianças, as latrinas, a maquete com a descrição pormenorizada dos passos que levavam à morte pelo gás Zyklon B, num extremo a villa com piscina e jardim, e vista para as chaminés dos crematórios, onde o comandante Rudolf Höss residia com a mulher e os filhos.

O extremo pragmatismo do extermínio dominava um dia-a-dia que também existiu para os poucos que escapavam às seleções. E que, para as SS, serviu de plataforma de aprendizagem a fim de melhorar os métodos utilizados. Rapidamente, estas forças perceberam a importância dos pequenos detalhes: era mais fácil tirar as famílias de casa dizendo-lhes que iriam ‘mudar-se’ por tempo prolongado para Auschwitz, obrigando-as, assim, a levarem para lá os seus melhores pertences — espoliados à chegada; era mais pacífico conduzir uma mãe e um filho juntos para a câmara de gás do que tentar separá-los, e mais complicado despir um cadáver do que mandar as pessoas despirem-se antes de as assassinarem.

Com a mesma lógica, esterilizavam-se as mulheres de forma brutal, a um ritmo ideal de mil por dia, como resposta a um projeto de futuro em que judeus e ciganos não teriam lugar, enquanto aos polacos estava reservado o papel de escravos. A grande deportação de judeus húngaros em 1944 (400 mil, gaseados em 56 dias), requereu condições logísticas específicas, como a extensão das vias férreas até aos crematórios. Por outro lado, um sistema infernal como o Lager não poderia funcionar sem que as próprias vítimas fossem a ele assimiladas, sem uma extensa camada de prisioneiros-funcionários que, além de vítimas, eram também opressores. No meio de tudo isto, não falta o pormenor bizarro de uma banda sonora, a da orquestra onde Eddy de Wind chegou a tocar o clarinete, que acompanhava a ida e a vinda de Auschwitz-Monowitz, ou Buna, o campo às ordens da IG Farben, onde Primo Levi foi forçado ao trabalho.

Crianças prisioneiras em Auschwitz
Crianças prisioneiras em Auschwitz

SÍMBOLO DO EXTERMÍNIO

Não é certamente por acaso que o Dia da Memória do Holocausto, também comemorado hoje, coincide com o da libertação do mais mortífero campo de concentração e extermínio da II Guerra Mundial. Porque Auschwitz é o símbolo do horror nazi, é o resumo, a síntese do seu auge. Houve muitos horrores nesses anos, disseminados por muitos países, mas poucos ultrapassam o deste local em grandeza e estatísticas, em aplicação satisfatória da ‘solução final’, em precisão das técnicas encontradas, em quantidade de meios mobilizados para o objetivo do ‘trabalho até à morte’.

Esta segunda-feira, na cerimónia anual em Auschwitz-Birkenau, acessível em streaming no site do Museu a partir das 14h30 (hora portuguesa), os sobreviventes são os principais convidados. Esperam-se pelo menos 200, vindos dos Estados Unidos, Canadá, Israel, Austrália, além de alguns países europeus. Em termos de chefes de Estado, conta-se com a presença dos de Austrália, Áustria, Alemanha, Bélgica, Bulgária, Croácia, Finlândia, Grécia, Hungria, Irlanda, Israel, Letónia, Lituânia, Holanda, Noruega, Polónia, Roménia, Eslovénia, Reino Unido e Ucrânia, além de uma vintena de embaixadores – Portugal está representado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva.

Muitos destes países têm visto, nos últimos cinco anos, as estatísticas do antissemitismo a aumentar para níveis como não se via desde a II Guerra Mundial. Na França, onde atualmente a população judaica atinge o meio milhão de pessoas, a subida foi de 74% em 2018. Nesse ano, o maior estudo alguma vez feito sobre a perceção do antissemitismo, levado a cabo pela Agência Europeia para os Direitos Fundamentais, desvendou que 9 em 10 judeus da Europa sentiram que o antissemitismo se incrementou nos seus países, sendo que 71% evitam usar elementos que os identifiquem como judeus. Um terço dos inquiridos considera a hipótese de emigrar.

“Porque sabemos, temos uma escura premonição.” Esta é a frase-mote escolhida este ano para sublinhar o aniversário dos 75 anos de Auschwitz. Pertence a Zalmen Gradowski, um judeu polaco que foi Sonderkommando [prisioneiros encarregues de lidar com os cadáveres e limpar os fornos crematórios] em Birkenau e que fez parte da revolta de prisioneiros neste campo, em outubro de 1944, morrendo na tentativa. Depois da guerra, dois manuscritos da sua autoria foram encontrados nas imediações de um dos crematórios e mais recentemente publicados pelo Museu de Auschwitz-Birkenau sob o título “From de Heart of Hell: Manuscripts of a Sonderkommando Prisoner, Found in Auschwitz”.

Fonte: Expresso

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